23 agosto 2018 • Instituto Aurora

Novo teste da democracia: O que a presença de apenas uma candidata negra à Presidência revela sobre o Brasil?

 

Mais uma vez a nossa jovem democracia vai ser testada. Será a oitava eleição direta desde que o ciclo autoritário saiu de cena, deixando para trás um cenário de terra arrasada, tanto econômica quanto socialmente. No início dos anos 1980, quando pudemos reparar sem filtros o que havíamos recuperado, o que vimos foi um país ainda para ser feito. E não sabíamos por onde começar. Por isso, o caminho foi tortuoso.

Com a imprensa livre e a internet, as falcatruas políticas – tão enraizadas nas práticas de poder do País desde sempre – vieram à tona e então passamos a viver de escândalo em escândalo: os desvios de Collor, as privatizações de FHC, o Mensalão de Lula, o Petrolão de Dilma, a septicemia no governo Temer. Hoje só se fala nisso e muitos apostam que só com um governo autoritário as coisas entrariam nos eixos. Ou seja, muitos querem que o futuro seja voltarmos ao ponto de partida, dando um looping diretamente para aterrissar no regime militar.

Para muitos outros, a saída é aprofundar a democracia, buscando não perder o que se realizou nesses 30 anos: a política macroeconômica que garantiu estabilidade monetária; os superavits primários, que criaram reservas cambiais importantes; o aumento do salário mínimo, que ampliou o mercado consumidor interno; as políticas de combate à pobreza, que encurtaram a fome, protegeram crianças, salvaram vidas.

Tudo isso é muito. É que olhando do deserto no qual fomos deixados pelos governos militares, um mundo de inflação galopante e fome crônica, de atraso tecnológico e oferta de ensino anoréxica, parece quase nada. E é. Tomado o conjunto da população, na maior parte dele sequer chegamos à Revolução Francesa. “Muito” e “pouco” são expressões que não dizem o que “precisamos”, mas “como” queremos ver nosso país.

Mas é assim mesmo. Somos o resultado do que deixamos de fazer. Por exemplo: nunca fizemos uma reforma agrária como os Estados Unidos no século 19, ou o Japão no fim da Segunda Guerra; nunca criamos uma política de desenvolvimento educacional e tecnológico como a Coreia do Sul e a China; nunca capacitamos nossos jovens em formação técnica, como a Alemanha; nunca investimos em saneamento básico, como quase todo mundo.

Somos tão frágeis que achamos fundamental dar incentivos fiscais para fábricas se instalarem na Amazônia, para as pessoas não desmatarem a floresta. E o incentivo fiscal que poderia se transformar em escolas e formação para inventar atividades geradoras de renda e emprego gera um tipo de trabalho sem vínculo com a realidade do povo da floresta, montando televisão, moto, computador. Fazemos isso. E fazemos porque não sabemos ainda o que fazer. Vamos tentando e nos arrependendo. Vamos torcendo e apoiando e vamos sofrendo e nos surpreendendo. A democracia é o espaço no qual esses itinerários são possíveis.

Mas há ainda tantas distorções no nosso país que mais nos parecemos com aqueles espelhos de circo. Somos uma população de maioria de mulheres, mas apenas 11% dos parlamentares são mulheres. Nesse quesito, há 151 países na nossa frente. 151! O mesmo ocorre com os negros e pardos. Segundo o Censo de 2010, negros e pardos são mais da metade dos brasileiros. No entanto, dos 513 deputados federais, apenas 43 se reconhecem como negros ou pardos. No Senado, são apenas dois. Dois!

A sociedade parece ter se acostumado a ver médicos brancos, engenheiros brancos, juízes brancos, gerentes de empresas brancos. É tão comum que parece que é “natural”. O mesmo ocorre com a representação política. Marina Silva é a única candidata mulher e negra para a Presidência nessa próxima eleição. E vinda da floresta. E que se alfabetizou depois de adulta. Já disputou duas vezes, mas não conseguiu chegar ao segundo turno. Se as mulheres, os negros e pardos e os que não estudaram na idade certa votassem nela, com certeza venceria no primeiro turno.

Não que deva ser assim. Mas imaginar o que poderia ser revela-nos que somos um país no qual mulheres, negros e pardos são a maioria dos brasileiros, embora não pareça. Quem sabe, tornar natural essa possibilidade não deva ser o próximo passo dessa nossa luta democrática?

Daniel Medeiros é professor de história do Brasil e apoiador do Instituto Aurora.

 

Acesse este artigo na Folha de Londrina.

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