23 fevereiro 2019 • Instituto Aurora

Carta endereçada às pessoas privilegiadas

Cafarnaum é uma carta endereçada a todas as pessoas que tiveram a “chance” de: ser acompanhada por um profissional da saúde enquanto estava sendo gestada, fazer pelo menos uma refeição digna por dia, tomar um banho por dia, ser registrada e ter um documento de identificação, frequentar uma instituição de ensino, ter um emprego, casar em idade apropriada, nunca ter sido torturada…

Ou seja, é uma carta endereçada a todas as pessoas que tiveram seus direitos à uma vida digna, seus direitos humanos, garantidos. Inicio o texto associando essa lista de direitos a “chance”, porque, em contextos de desigualdade social, o acesso a esses direitos figura como privilégios. Esse é o caso da realidade mostrada em Cafarnaum, que retrata a periferia de Beirute, no Líbano. Mas, esse é também o caso do Brasil. No entanto, a garantia de tais direitos deveria ser prioridade na gestão de qualquer nação.

O microcosmo de Cafarnaum se apresenta diante de nós pelos olhos de Zain, um menino de aproximadamente 12 anos, que vive na periferia de Beirute e que teve seus dias marcados por uma violência parental, social e estrutural. Uma violência de tamanha brutalidade que nos paralisa por um momento. É de nos deixar sem reação ao perceber que aquilo que estamos vendo diante da tela e que, como sociedade, nomeamos de tantas formas – academicamente, judicialmente – naquele contexto, simplesmente, acontece na vida de Zain. Simplesmente, é a vida (?) dele. São seus dias.

Nesta carta endereçada, somos chamados a ser sensíveis e a lembrar que as histórias de vida são muito, mas muito mais, complexas do que o que as primeiras camadas podem nos apresentar.  A minha vida não é igual a sua e a sua não é igual a da criança que pede ajuda por sofrer violência em casa, assim como não é igual a daquela pessoa que chega em nosso país clamando por refúgio. Temos todos histórias diferentes e elas constroem quem nós somos e quem podemos ser. Essas histórias não são um acaso. Mas, são também fruto de relações e decisões excludentes ou não, justas socialmente ou não.

Sejamos contra critérios de seletividade para uma vida digna. Sejamos sensíveis para compreender histórias de vida. Sejamos capazes de ler essas cartas endereçadas a nós e não engavetá-las.

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