25 março 2019 • Instituto Aurora

A cor de Suzano: sobre violência branca e meninos

Na coluna do Instituto Aurora no Plural, Daniel Martins analisa o que leva a um massacre como o de Suzano

Como foi que Suzano pôde acontecer? Como é que dois jovens entram armados em uma escola e atiram de forma relativamente aleatória sem que tamanho ódio tenha sido detectado antes? Afinal, quantos alertas deveriam ter sido acesos até que se chegasse a esse ponto? E depois de tudo isso, o que podemos aprender sobre a seletividade do receio sobre determinados comportamentos de meninos e homens?

Meninos serão meninos – essa é uma frase bastante comum (em especial em inglês) que aponta para um certo fatalismo na forma de encarar comportamentos considerados tipicamente masculinos. Desde uma criança que cola chiclete no cabelo de uma coleguinha de creche até um grupo de adultos gritando para uma mulher sozinha na rua de dentro de um carro, várias são as condutas consideradas “de homem”. A linha de conivência com condutas violentas, para homens, parece ainda ser bastante alta. Ele bate, mas trabalha. Ele fala essas coisas, mas é bom estudante. Ele pelo menos visita o filho. Ele pelo menos paga a pensão.

Mas e os meninos? Num Brasil em que pouco mais da metade da população e a maior parte das crianças para adoção é negra, perto de 85% dos adotantes preferem crianças brancas, segundo dados do Cadastro Nacional de Adoção do Conselho Nacional de Justiça. Os meninos negros mais velhos são a última ponta de desejabilidade, ao passo que meninas brancas são as preferidas pelos adotantes. Segundo um estudo publicado no Journal of Personality and Social Psychology, crianças negras são vistas como mais responsáveis do que crianças brancas. Isso se espraia para um maior temor de violência e sexualidade precoces nessas crianças, que são “adultizadas” muito mais cedo, enquanto que crianças brancas são vistas como mais “inocentes”. Pense na imagem de um anjinho, de pele e olhos claros, cabelos loiros encaracolados. É difícil ver um anjinho negro, e isso diz alguma coisa sobre nossa sociedade.

Assim, por mais que haja uma semelhança nas expectativas sobre homens (um menino que briga ou se mostra dominador pode ser considerado “naturalmente” assim por conta de um padrão socialmente reforçado de masculinidade), existe uma diferença no que se espera de diferentes categorias de homens, uma diferença de cor. Não fosse isso seria difícil de explicar casos como o de Kauan, 12 anos, baleado durante uma operação policial na Baixada Fluminense, RJ, no dia 18 de março. Ao prestarem “socorro” os policiais – autores do disparo fatal segundo os familiares da vítima – algemaram o menino, ferido no pescoço, para levá-lo ao hospital. Kauan, entretanto, acabou falecendo em decorrência do ferimento. A razão das algemas num menino de doze anos ferido mortalmente no pescoço não é mistério para quem entende como funciona o racismo no Brasil.

Tomemos, por outro lado, um dado trazido pelo escritor Michael Kimmel, autor de mais de 20 livros sobre Masculinidades. Em sua obra Angry White Men(Homens Brancos Raivosos, sem tradução no Brasil) ele explica como os sofrimentos individuais de homens brancos são catalisados, direcionados e transformados em ódio aos “de baixo”: negras e negros, LGBT, imigrantes e mulheres em geral. Temas como desemprego, sofrimento psíquico, bullying e sentimento de deslocamento são habilmente usados como gasolina para alimentar a chama de um ódio à diferença de tudo aquilo que não coloca o homem branco como topo da pirâmide social. E esse discurso, quando entra em contato com fatores individuais e contextuais de risco, pode ser a munição necessária para ocorridos como Suzano.

No capítulo intitulado “Angry White Boys” (Meninos Brancos Raivosos) o autor mapeia os tiroteios escolares nos Estados Unidos, verificando alguns argumentos normalmente usados para explicar esse tipo de ocorrido e ponderando-os com suas próprias análises. A conclusão é que a disponibilidade de armas, por exemplo, facilita acontecimentos como Suzano, assim como algum histórico de abuso pessoal, familiar, ou mesmo a presença de transtornos mentais. Estes fatores, porém, precisam estar aliados com algo mais: um modelo de conduta, uma forma de validação e julgamento de ações, um script socialmente aceito em um determinado contexto, um roteiro que aponte para a violência redentora como solução para um impasse pessoal.

É aqui que Kimmel explora um dado raramente comentado: dos anos noventa para frente o perfil de School Shootings (tiroteios em escolas) mudou drasticamente. De brigas de grupos a vinganças pessoais, os eventos possuíam alvos definidos, eram protagonizados por minorias étnicas em geral, e se relacionavam a conflitos interpessoais e contextos de vulnerabilidade social em grandes metrópoles. Esse tipo de ocorrência diminuiu (dentro das escolas de regiões centrais), passando a dar lugar para exercícios de violência generalizadas, com atiradores em sua quase totalidade brancos, atuando em escolas de cidades menores, sem alvos definidos  mas com discursos bastante semelhantes: uma desforra contra “eles”, pois “eles” que “nos” fizeram sofrer.

A narrativa de redenção através do ódio armado tornou-se um ponto central na justificativa de tais atos, e o resultado de suicídio ou morte em confronto com a polícia (que Kimmel chama de “suicídio por assassinato em massa”) passou a ser outro dos pontos comuns desse tipo de ocorrência.

Seria o bullying? Não necessariamente. Kimmel explica que não é apenas a violência sofrida que determina esse tipo de ação, até porque outros grupos mais fragilizados sofrem bullying diariamente e não revidam de forma violenta e sistemática. As explosões sobre si e sobre os outros dos meninos brancos é diferente. Seriam os videogames ou a mídia? Estudos em psicologia tampouco conseguem encontrar uma correlação direta entre jogos violentos e exercício de violência. A especificidade, como dito, está na narrativa, na ideia de um certo “direito dos meninos brancos” a serem violentos sem que isso seja considerado um risco para eles mesmos ou para a sociedade.

Tomemos o caso dos atiradores de Suzano: amantes de armas de fogo, admiradores do atual Presidente da República (um apologosta da violência que tem no gesto de uma arma o símbolo de sua campanha), cultivadores de um ódio às mulheres, à esquerda, a “eles”, inimigos que precisam ser exterminados através da violência. Meninos brancos que frequentavam fóruns on-line onde o herói tradicional dos filmes (um homem que, através da violência, resolve um conflito, derrotando e não raro matando, com suas próprias mãos, o “mal”) é visto como algo além de uma ficção, como uma realidade possível, como um modelo a ser seguido. Lugares em que a narrativa de uma boa sociedade sendo atacada pelos “de fora” e precisando ser salva foi amarrada, amalgamada, fundida com o sofrimento individual de se sentir excluído em seu próprio meio. Todos os jovens, à sua maneira e em diferente extensão, profundidade e contexto, sofrem, mas a forma de revidar dos meninos brancos conservadores é a especificidade dos School Shootings.

O que Kimmel explica é que em contextos onde dominam padrões de masculinidade violenta, em que os sujeitos são medidos de acordo com seu pertencimento a um certo padrão (o padrão do macho Alfa), o exercício doente dessa identidade pode se dar através do recurso à violência explosiva, em especial nos casos em que o bullying exercido sobre esses meninos é feito com base nesse ideal de masculinidade. Fraco demais, bicha demais, pobre demais, bobo demais, o ressentimento criado pela distância entre ser (um homem branco) e pertencer (ao grupo dos homens brancos que dominam e aqueles que a eles se aliam) faz com que a vingança ocorra, paradoxalmente, sobre aqueles grupos que sofrem por conta desse do empoderamento desse ideal violento de masculinidade.

Note-se que muitas vezes esse mesmo padrão é utilizado no treinamento das forças armadas, em especial dos grupamentos especiais das polícias militares, e veremos que o fato de o Brasil ter umas polícias mais violentas – que mais mata e morre – do mundo também tem um componente racial e de gênero muito forte.

Nos termos da pesquisa de Katherine Newman, antropóloga cultural e estudiosa do tema citada por Kimmel, além da marginalização social (bullying), predisposições individuais e disponibilidade de armas, temos que os scripts culturais (modelos de comportamento) e falhas no sistema de vigilância são fatores fundamentais para esse tipo de evento. A vigilância não tem a ver com a presença de pessoas armadas na escola, mas sim com adultos treinados (como profissionais em psicologia, pedagogia e serviço social) capazes de identificar contextos geradores de sofrimento psíquico e sinais de risco individual de violência contra si e contra os outros.

Isso envolve começar a levar a sério “brincadeiras” com armas de fogo, discursos sobre “acabar com” grupos, “exterminar” pessoas e ideologias, e outras falas bastante características da última campanha presidencial. Envolve entender que no Brasil um menino negro de 12 anos baleado no pescoço é visto como mais perigoso do que dois jovens com amplo histórico de apologia à violência armada. Envolve perceber a diferença entre reações violentas à violência do Estado, julgamentos racistas e paranóicos do sistema de segurança pública, e a gravíssima leniência com discursos de limpeza social, de recurso à violência como forma de redenção de uma “boa” sociedade. Os problemas de uma democracia dificilmente são resolvidos com menos democracia.

Essa masculinidade branca e ressentida, que busca reafirmação na vingança, é apenas uma vivência muito pobre do que pode ser a experiência de um homem. Mas para isso, precisamos ainda desconstruir alguns mitos em nossa sociedade.

*Texto publicado no jornal Plural: A cor de Suzano: sobre violência branca e meninos

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